Uma equipe composta por biólogo e veterinários conseguiu identificar que a morte de uma anta em São Miguel Arcanjo (SP), ocorrida em 24 de março de 2023, foi o primeiro caso de raiva da espécie em vida livre do país. Um artigo sobre o assunto foi publicado em uma revista científica na sexta-feira (18).
A equipe técnica do Cras Núcleo da Floresta, de São Roque (SP), composta por Rafael Mana, Cayo Riskalla e Bárbara Ribeiro Pilão, escreveu o artigo “Raiva em anta brasileira (Tapirus terrestris) de vida-livre: o primeiro relato” ainda em 2023, que, segundo Rafael, demorou mais de um ano para ser publicado e aceito por uma revista científica.
“Assim que a gente suspeitou, a gente foi atrás de todos os pesquisadores do Brasil que trabalham com anta e não existia nenhum artigo publicado com comprovação de raiva em anta de vida livre, só anta em cativeiro. Acusaram a gente de sensacionalismo, tentaram abafar o caso, foi surreal”, conta Rafael.
Após diversas pesquisas, o artigo do grupo explica que a anta macho, apelidada de Roberval, foi o primeiro caso de raiva da espécie Tapirus terrestris em vida livre do Brasil.
A anta morreu em decorrência de raiva após ser resgatada em 16 de março de 2023 de uma área de preservação ambiental. Conforme apontaram os resultados dos exames, a transmissão da doença ocorreu por mordida de morcego-vampiro.
O artigo ficou pronto logo após a morte de Roberval, porém, esteve em domínio de outra revista pelo período de um ano e dois meses, até que, após ser dispensado, pôde ser enviado para outro veículo, que fez publicação na sexta-feira.
A revista científica Brazilian Journal of Animal and Environmental Research (BJAER) disponibiliza o artigo gratuitamente por meio deste link.
Artigo sobre anta de São Miguel Arcanjo (SP) que morreu devido à raiva pode ser lido gratuitamente no site da revista BJAER — Foto: Reprodução
Relembre o caso
A anta macho foi resgatada pelo Núcleo da Floresta na região do Parque Estadual Carlos Botelho em 16 de março, com uma possível fratura na pata.
Após o resgate, o animal foi encaminhado à unidade do Núcleo da Floresta em São Roque, onde recebeu atendimento veterinário, porém, nenhum ferimento foi constatado pelos profissionais.
De acordo com o Núcleo da Floresta, nos dias seguintes, o animal começou a apresentar distúrbios neurológicos e foram enviadas amostras dele para exame no Instituto Pasteur, entidade ligada à Secretaria da Saúde do Governo do estado e dedicada à pesquisa científica sobre a raiva.
O laudo confirmou a infecção pelo vírus da raiva e, no dia 24 de março, a anta macho morreu devido à doença. Também houve a confirmação de que a transmissão ocorreu por um morcego-vampiro no laudo, que foi publicado no dia 27.
Segunda morte de anta por raiva na região
Após cair de um barranco em uma área rural de Tapiraí (SP), em maio deste ano, outra anta macho morreu em decorrência de raiva. O animal foi apelidado de Vitor.
Os resultados dos exames da anta foram divulgados em 28 de maio pelo Laboratório de Zoonoses Virais da Universidade de São Paulo (USP).
Ainda segundo o biólogo Rafael, que participou do segundo resgate, este foi o segundo caso de uma anta de vida livre com o vírus da raiva na região.
*Colaborou sob supervisão de Carla Monteiro